Voando com Lartigue

7 · 15 · 2011

Jacques Henri Lartigue era um cara de sorte, mas independentemente disso, porque afinal de contas ele viveu em tempo de guerra, ele escolheu a sorte, ou melhor, a alegria. Com certeza, alguns colegas seus diriam na época: “esse Jacques tem a cabeça nas nuvens, o mundo está desabando e ele só pensa em voar”. Ele era francês e rico, o que, no começo do século XX quando tudo ainda estava sendo feito, significava que a velocidade começava a entrar na vida cotidiana com voos mirabolantes (ele conheceu até o Santos Dumont), os carros invadiam as ruas, a fotografia (que ainda era um hobby para poucos), e o cinema que acabava de chegar.

Quando era pequeno, seu pai lhe deu uma máquina fotográfica. Jacques não quis saber de outra coisa na vida: só fotografava e, mais tarde, escrevia um diário. E não fazia viagens à África, nem ao Nepal, nem ao fronte da primeira guerra. Ele tirava fotos de sua família mesmo, do seu entorno. Azucrinou a sua irmã uma tarde inteira para que ela ficasse pulando da escada para ele ter várias opções de fotos, se escondia detrás das moitas do Jardin des Plantes para tirar foto das moças bonitas, não sossegou até que andou de avião. As coisas que ele via todos os dias eram bonitas, só que ele as deixava ainda mais bonitas. Afinal, não basta ter uma câmera, é preciso saber olhar. E até hoje ele nos ensina a olhar as sombras e a languidez do ócio, os pulos, voos, o mar agitado, as mulheres da moda, as risadas descontroladas, as brincadeiras bobas. Jacques achava o mundo maravilhoso.

Há pouco tempo fui à Caixa Forum de Madri ver uma exposição de Jacques Lartigue e me deparei com o Wes Anderson, um dos meus diretores favoritos. Eu sabia que ele era fã do fotógrafo, mas não sabia até que ponto! Lá estava o Zizou, que era irmão do Jacques e nome do filme do Wes, estava o Max Fisher do Rushmore, estavam os personagens melancólicos, porém alegres, como as eternas crianças do Lartigue. Saí de lá flutuando e volto a flutuar toda vez que abro as páginas do catálogo da exposição. Hoje a gente não vê mais graça em andar de avião e reclama da vida rápida demais. Tudo isso que para Lartigue era novidade é também a matéria do que se transformou depois em sua arte. Seu “mundo flotante” mostra um passado muito pouco retratado, de uma vida quase parelela às mazelas da Europa em guerra. Suas cenas do cotidiano chamam a nossa atenção para o que temos ao lado, agora mesmo, e para a importância de saber olhar.

Be Sociable, Share!

4 comentários

  1. Marlene says:

    Lu, eu não conhecia o personagem do seu post, mas adorei as fotos dele. Assim como ele tinha um modo especial de olhar o mundo, seus posts também nos deixam entrever a particularidade do seu modo de ver as coisas. Beijão, com saudade.

  2. Renilse says:

    Lucy,

    Baseada nessa e em outras histórias que venho refletindo bastante sobre o minha maneira de ver o mundo. Obrigada por nos apresentar a Jacques Henri Lartigue.

    Um beijo grande!

    Renilse

  3. Lucy says:

    Mãe, você vai adorar as fotos dele. Se aparecer alguma exposição aí em São Paulo, não perca!

  4. Adriana says:

    Lucy,

    Também não conhecia o Lartigue, mas ainda bem que gosto demais de ler seus posts e vim aqui.

    Que fotos lindas!!!

    No meu momento limbo, também comecei a fotografar. E descobri que fotografar me faz prestar atenção em detalhes que não reparava antes.

    Inspirador o seu texto!

    bjs e boa semana,

    Adriana

Deixe um comentário

DePo Archives

Lifestyle Blogs - BlogCatalog Blog Directory
Blogs de Viagem