Ver sozinha é ver mais devagar

7 · 20 · 2011

O filme “Summertime” (no Brasil chamado “Quando o coração floresce”) tem entre seus méritos principais a fotografia perfeita em Technicolor, captada com primor na edição cuidadosa em DVD da Criterion Collection. Além disso, lógico, a atuação versátil da Katharine Hepburn em uma história de amor hollywoodiana à moda antiga, com Frank Sinatra cantando, baile à luz da lua, vestidos rodados, beijos roubados e tudo mais. A gente quase se esquece de que estranho poderia ser, naquela época, uma mulher viajando sozinha. Hoje com certeza é muito menos, mas também me intriga entender por que “mulher viajando sozinha”, “mulher casada pode viajar sozinha”, “viajar sozinha” e derivados, são as buscas mais comuns no Google que trazem leitores/leitoras ao Flanâncias e o post “Sobre viajar sozinha” é um dos mais lidos do blog. Dá o que pensar, não?

O começo de Summertime consegue transmitir aquela sensação de entrega à surpresa. A expectativa no trem, a emoção que sente ao chegar, a câmera de fotos como companheira de viagem, os momentos sozinha nos cafés, o prazer e orgulho de começar a usar as primeiras palavras na língua local, às vezes também a solidão, mas, principalmente, o orgulho de se sentir independente, sem roteiros previstos (ao contrário dos turistas estadunidenses que ela encontra), desfrutando do seu próprio tempo e de suas próprias vontades.

Não sei por quê é diferente ver um lugar pela primeira vez com outra pessoa do lado. No filme, a personagem de Hepburn parece irritada com tudo o que os outros falam para ela de Veneza. Também se sente incomodada quando estão falando perto dela enquanto ela tem aquele primeiro encontro com um lugar bonito. E é verdade que o olhar do outro, mesmo quando silencioso, interfere no nosso. Mesmo quando a sintonia é a mesma, o desejo de conhecer é o mesmo, porque cada pessoa carrega uma bagagem diferente e ver implica usar tudo isso para também compreender, assimilar. Me lembrei agora daquele continho do Eduardo Galeano (O livro dos abraços):

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Me ajuda a olhar!”

Não prefiro viajar sozinha a viajar acompanhada, simplemente são experiências diferentes. Gosto de andar sozinha por Madrid, por exemplo, porque ali ainda descubro coisas. Até mesmo em Múrcia, onde ainda me perco e fico até feliz de me perder. Em Pequim, era mais complicado ver sozinha (não viajar, não por perigo nem nada disso), porque era tudo tão alheio ao que eu conhecia, tudo tão grande e distante, que cada detalhe precisava de muito tempo e dois olhos eram escassos para tanta novidade. Quando fui a Roma com minhas amigas, tirei uma manhã só para mim porque eu precisava me perder sozinha pela cidade. Na verdade, em todas as viagens que faço acompanhada, preciso das minhas horas sozinha andando pela cidade.

Tem um silêncio que acompanha a visão que é delicioso. É bom comentar com nosso acompanhante aquilo que estamos vendo. De certo modo isso chega até a dar sentido ao que se vê. Por outro lado, ver sozinha é mais denso, mais lento e requer certa prática introspectiva.

Voltando a Summertime, a personagem de Hepburn é uma mulher mais velha e com problemas emocionais que não são explicados – afinal, estamos nos anos 50, uma época na qual as mulheres jovens e resolvidas deveriam estar casadas, não viajando sozinha pela Europa. Mas será que esse mesmo preconceito não funciona hoje? Quando vejo como entram aqui por esse assunto penso em quantas mulheres têm vontade de fazer isso e não o fazem, talvez sem coragem, talvez sem dinheiro, talvez só esperando a hora certa.

De todos modos, a estória do filme, apesar de romântica e até mesmo previsível, vale a pena pelas cores, a fotografia, a interpretação. Summertime é uma delícia para os olhos, mostrando uma cidade exuberante, mas, principalmente, uma mulher sozinha que se deslumbra com a beleza e a arte e que, afinal, se entrega a um amor que só pode durar os dias que duram sua viagem. Nada mal.

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16 comentários

  1. marlene says:

    Lu,
    Vou incluir esse filme na minha lista de compra. Será que vou achá-lo aqui? É lindo e a música também. Você sabe como eu gosto dos filmes antigos. Bjs

  2. Renilse says:

    Lucy,

    Penso que toda pessoa deve fazer pelo menos uma viagem sozinha! Adorei o texto e o filme vai para a lista.

    Beijos,

    Renilse

  3. Marinalva Santos Leite says:

    LU,
    Adorei este texto. Já assisti o filme e realmente é lindo.Agora me diga, menina, onde foi que tú aprendeu tanto sobre fotografias????kkkkkkk.
    Concordo com voce, eu estou precisando fazer uma viagem. Pegar um ônibus, um avião e se pirulitar. Só para descansar.
    Beijos
    Marinalva

  4. Lucy says:

    O filme está no Brasil, sim, mãe. Acabo de achar na Livraria Cultura.

    Renilse, estou de acordo com você. Viajar sozinha é um “must” 🙂

    Tia, pirulite-se mesmo e aproveite, que eu sei que a tia curte bater perna!

  5. Lucy says:

    Renilse, seu blog foi bloqueado? Eu não consigo entrar…

  6. Adriana says:

    Lucy,

    Que texto perfeito!

    Eu também sinto necessidade de ficar sozinha quando viajo.

    Amo meu marido, mas me sinto diferente andando pelas ruas sozinha. Tenho o meu tempo e posso dar a atenção que quero para detalhes que são importantes somente para mim.

    E sinto a mesma coisa com filmes… adoro ir ao cinema sozinha. Não é melhor nem pior que ir acompanhada, mas é uma experiência totalmente diferente.

    Abraços,

    Adriana

  7. Lucy says:

    Que bom que você gostou, Adriana. Pois é, isso mesmo, que ninguém pense que a gente não gosta de estar com nossos queridos respectivos, nada mais longe disso, mas é gostoso mesmo andar sozinha. Ir ao cinema também e ao café para sentar e observar a fauna. 🙂 Abraço.

  8. Lilian says:

    Vivo uma situação parecida. Acabo de me mudar (encontramos a casa na Califórnia) e meu marido está viajando a trabalho pelo período mais longo em que estivemos separados.
    É uma comparação pálida perto de uma viagem para terras desconhecidas já que estou no país há algum tempo, mas ainda assim, em comum o gostoso exercício de introspecção. A sensação de conquista quando caminho sozinha pela nova vizinhança, confortável comigo mesma, cada dia menos forasteira, cmais íntima dos seus (e dos meus) segredos, cada vez mais em casa, dona do pedaço.
    Adorei, Lucy.
    Um abraço.

  9. Lucy says:

    Lilian, que legal que vocês encontraram a casa que estavam buscando. Não acho uma comparação pálida, não… Acho que tem tudo a ver. É a conquista do território. Quando estou viajando sozinha e saio do hotel e me jogo na cidade, eu me sinto o próprio Marco Polo! Continue curtindo sua casa! Abraço.

  10. Aida says:

    Sempre viajo sozinha!! É uma delícia indescritível poder curtir tudo com calma, meditar, relaxar sem pressa… Aliás, faço questão de fazer tudo sozinha e muito bem acompanhada por mim mesma: faço compras, vou ao cinema e à praia, treino, caminho por aí, leio, passeio etc etc etc. Sou mega-individualista,independente e contemplativa! Odeio gente palpitando e tirando minha atenção ou foco! Só aceito gente por perto em poucas ocasiões (nem preciso exemplicar…). E adoro ser assim!

  11. Lucy says:

    Oi Aida! É gostoso viajar sozinha mesmo, são outros quinhentos. Mas eu também amo viajar com o meu marido, somos o par perfeito para viajar porque respeitamos o espaço e o tempo de cada um. Isso é fundamental para viajar acompanhada e é um negócio difícil de se achar. Obrigada pela visita! 🙂

  12. Maria Daura says:

    Por que não fui eu quem escreveu esse texto? Nem posso comentar. Está tão próximo das minhas vivências, do que eu sinto, que me emudece.
    Abraços

  13. Lucy says:

    Olá Maria Daura, que bom que você gostou! Obrigada!

  14. Audrey says:

    Oi meninas,

    Como fazer para viajar sozinha com segurança?? hehe
    E atualmente na Europa com a crise as coisas parecem estar estranhas.
    Bom, é difícil conciliar os interesses quando se convive com pessoas diferentes. E grande parte das amigas solteiras se distanciam, as casadas sempre ocupadas.
    Preciso de novas amigas!!

    Bjos e obrigada pela sugestao do filme, muito bonito!

  15. Lucy says:

    Olá Audrey! Se você está na Europa, a segurança aqui ainda é bastante boa. Lógico, numa cidade grande como Londres, Paris, Madrid… ou em qualquer outro lugar, vai, tem que ficar sempre atenta. Minha maior preocupação seria para sair à noite, até tarde. Lembre-se que o europeu anda na rua, a cidade não fica deserta depois das 9 e menos ainda no verão! Se você tiver vontade de viajar sozinha, não tenha medo. É só fazer uma boa preparação! Beijos e volte sempre! 🙂

  16. […] vontades, seu tempo e seus limites. A autora do Blog Flanâncias, Lucy Leite traz em um dos seus posts uma impressão poética e bem agradável da experiência: “tem um silêncio que acompanha a […]

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