Paris Gourmande (2) – boulangeries (vulgo, padocas)

9 · 2 · 2010

Com algumas diferenças, os parisinos compram pão como em São Paulo: recém saído do forno, na padaria da esquina. Às vezes pensamos que o pão com manteiga básico do nosso café da manhã é mundial, mas na Argentina, por exemplo, havia poucas padarias que fabricassem pão, e menos ainda durante o dia todo. Lá, a grande maioria do que eles chamam “panadería” apenas vende pão feito em outro lugar. Aqui na Espanha a coisa é mais ou menos assim também. Eu tenho a sorte de ter uma padaria em frente de casa, mas se você não pede o pão você nem o vê, porque ele fica lá dentro, escondido, e é um lugar mais para comprar e levar pães, doces, salgados folhados, coisas desse tipo. Não conheço ainda outra padaria aqui em Múrcia, porque, pelo que parece, o povo costuma comprar pão é no supermercado mesmo. Por isso, só posso comprar uma boulangerie de Paris com uma padoca da esquina em São Paulo.

Pain aux raisins

Primeiro, há uma em cada esquina e digo isso literalmente! Não há nenhum perigo de começar a sentir crise de abstinência, tremedeiras, suores, pela falta de um croissant. Felizmente, elas estão espalhadas por todos os lugares, embora, como era de se esperar, a qualidade também varia de um lugar para outro.

Delícia de baguete

A constante é que vendem vários tipos de pães, desde baguetes, croissants, pain aux raisins, pain au chocolat, brioches, pain de campagne, até doces variados, porque praticamente todas as boulangeries têm também algo de patisserie (ou doceria). Além disso, estão as viennoiseries, que são os pães recheados, mais amanteigados ou feitos com ovos, e os pães normais de farinha, água/leite, sal e fermento. Em poucas padarias você pode se sentar e pedir um café, o que era realmente uma pena, mas era comum ver pessoas carregando suas baguetes recém compradas e já beliscando a pontinha na rua. Ainda bem, porque eu não era a única.

Fougasse

Todas as vezes que fui comprar pão de manhã eu peguei fila, não tinha jeito. Mas tinha uma fila absurda numa padaria em Montmartre que eu não queria encarar e só a entendi depois que a Laura Próspero comentou que o prêmio do melhor “bagueteiro” de Paris tinha saído para o boulanger daquela padaria: um senegalês de 33 anos que agora tem a honra de fornecer pão para o Sarkozy. Não é maravilhoso ver como, num momento em que se discute tanto a imigração e a identidade francesa, um senegalês ganhe um prêmio assim? Vejam só esse videozinho que mostra as delícias do lugar, o moço morenão e sua famosa baguete. Só que para comprar lá sem fila tem que ir à noite, quando já estão fechando.

Nós acabamos frequentando mais outra padaria do bairro, a Coquelicot, porque dava para sentar e tomar um café com leite (que eles servem em tigela ou em xícara) e uma tartine (1/4 de baguete) com manteiga crua (aquela igual à da minha avó) e geleia caseira já no caminho do metrô.

Boulangerie Coquelicot

Uma diferença básica e fundamental entre uma boulangerie e a padoca da esquina de Sampa é que a boulangerie fecha às segundas-feiras ou terças-feiras, ou sei lá, não entendi o critério. Suponho que isso seja assim porque elas abrem de domingo e, com certeza, as leis trabalhistas não permitem que as pessoas trabalhem 7 dias na semana. Toda uma conquista social, sem dúvida, mas eu, sem pão, não fico. Felizmente, o que percebi foi que pelo menos ali em Montmartre, no dia que fechava uma, outra estava aberta.

A brioche do Bread & Roses

Se eu sou fanática pela gastronomia, como vocês já sabem, sou mesmo louca por pão. Gosto de fazer em casa, de conhecer os diversos tipos e, lógico, de comer. Toda uma tradição na minha família, aliás! Uma das lembranças mais gostosas que tenho é a de chegar à casa da minha avó e sentir o cheiro do pão crescendo debaixo das mantas, no quarto ao lado da cozinha. Então, conhecer os pães franceses foi um deleite. O que recomendo, para os que vão a Paris e gostariam de provar pães menos comuns no Brasil, que comecem pelos básicos como, por exemplo, o pain aux raisin, que tem uma massa como a do croissant, só que é enrolado e recheado com uvas passas; para quem gosta de doce, o pain au chocolat deve ser um desbunde, mas esse eu não provei porque não sou chegada; o mais doce que eu provei foi o chausson aux pomme, uma espécie de folhado de maçã; as fougasses, pães recheados e salgados, são excelentes para fazer um piquenique no parque mais próximo.

Babando em frente à Poilâne

Dizem que a qualidade do pão na França está decaindo, porque se consome muito menos pão que antes (com certeza por causa de alguma dieta estadunidense que manda cortar os carboidratos) e porque até a farinha já não é o que era. Mas a verdade é que, na minha opinião, o pão ali é uma verdadeira delícia e, pelo que me pareceu, toda uma instituição. Onde já se viu, por exemplo, ter padeiros tão famosos que movie stars como Tom Cruise e Robert De Niro só comem pão dele? Estou falando da família encarregada da world famous Poilâne, que faz pães há quase um século e se gaba de manter a qualidade, apesar de tudo. Este vídeo abaixo não deve ser visto antes do café da manhã, por uma questão de saúde mental! E não se preocupe se você não entende francês, eu também não entendo muito, mas vale a pena ver o que é um pão sendo feito!

Para os que estão em São Paulo, eu sempre recomendo a Patisserie Douce France, do premiadíssimo “patisseiro” e boulanger Fabrice Lenud. Ali aprendi a degustar vários pães que, quando cheguei a Paris, já sabia o que eram. Além disso, é um lugar delicioso para tomar um café e sentir um saborzinho francês.

PS: Não pude encontrar nosso “pão francês” em Paris, mas ele continua entre os meus preferidos.

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12 comentários

  1. Daniela says:

    Adorei os vídeos!

    Só acho que o moço de morenão não tem nada, é negro mesmo.Qdo eu vejo alguém chamando uma pessoa negra de morena sempre me incomoda pq parece que negro é algo que não pode ser associado a alguém, que é palavrão ou algo do gênero.

    E qdo eu for a São Paulo, essa doceria já tem lugar certo no meu roteiro. Valeu a dica ;-)

  2. Lucy says:

    Dani, o homem é mais que negro, ele reluz!!! Aliás, falando do assunto, eu até queria escrever um post sobre os bairros mais afastados de Paris por onde andei porque eu nunca tinha visto uma coisa assim (ainda não conheço a África): de repente, eu saía do metrô e era a única branca. E também muito árabe e muita mulher de véu e burca (negra e árabe). E aquelas roupas que eles usavam, aqueles robes por cima de calças, as mulheres de turbantes e chales e sei lá o que, tudo colorido. Eles devem achar nossas roupas uma chatice só! Olha, em Salvador eu já me senti minoria branca, mas como na França, não!

    Não perca mesmo a Douce France, vai valer a pena!

  3. Lucy,

    Por falar na população francesa: quando estivemos lá vimos muito mulçumano e muito negro, mas notei uma diferença grande com relação à Itália. Eles eram pessoas integradas na sociedade. Aqui na Itália se nota facilmente que os estrangeiros geralmente não são integrados, não convivem com os italianos, não conseguem trabalhos bons, SAO marginalizados.

    Enfim, tudo o que acontece de ruim por aqui eles colocam a culpa no estrangeiro (chamado de extracomunitário – por cidadãos de fora da comunidade européia). A verdade é eles utilizam o termo muitas vezes de modo ofensivo. Por outro lado, a imigração francesa é diferente da italiana, ou seja, a França recebe muitos cidadãos provenientes de países colonizados pela frança e que falam francês. Já a Italia recebe gente de todo mundo, que não fala italiano, etc. O assunto é complexo porque devo dizer que acaba virando um ciclo vicioso: os italianos dificultam a integração, os estrangeiros acabam não fazendo muita questão de se integrar e convivem somente no núcleo deles, têm sempre baixa alto-estima, sofrem discriminação, fazem coisa errada, os italianos gostam cada vez menos, aumenta a política Bossi contra o estrangeiro, etc.

  4. Lucy says:

    Eu também achei isso, Érica, mas só morando lá mesmo para saber. Aqui na Espanha a discriminação é mais contra os rumanos e pessoal da Europa do leste. Os negros que estão em Múrcia, até onde sei, trabalham na lavoura e vendem piratarias pela rua. Eles também se vestem bonito, com aquelas túnicas. É raro ver um negro trabalhando, por exemplo, num supermercado ou em algum lugar legal. Mas eu nunca escutei comentários racistas, ou não entre as pessoas que conheço. Acho que em termos de racismo, a coisa aqui passa mais pelo lado dos ciganos.

  5. É melhor eu nem passar perto dessas padocas, tenho um fraco por carboidratos, nham…

    A família da minha avó era de Murcia, sou louca pra conhecer. Da Espanha, só estive em Barcelona, mas Barcelona não é “Espanha”, Barcelona é Barcelona! Rs…

  6. Sobre negros e muçulmanos…

    Passei apenas 4 dias em Paris. Foi suficiente pra causar um certo “estranhamento”. O que me intrigou de verdade foi o fato de não haver muita mistura: quase não se vê pardos, mulatos, apenas negros MESMO, aquele tom de pele reluzente e quase azul, nada misturados com brancos. É gente nova, que chegou ao país nos últimos anos. Em 2002 meu namorido foi a Paris e hospedou-se num Confort em Montmartre. Em 2010 foi de novo, eu fui junto e ele notou o aumento do número de imigrantes africanos, falantes do francês, que vivem no bairro ou o frequentam. No hotel, todos os funcionários eram negros. A gente até se sentiu um pouco “mal” por isso, tendo a impressão de que eles, como sempre acontece com imigrantes que vão da província para a metrópole, acabam ficando com os empregos “menores”, que os nativos – brancos – não aceitam mais. Por outro lado, também vimos negros de terno e gravata, com valise na mão, falando alemão ao telefone, bem-vestidos, lindíssimos… Infelizmente isso a gente não vê com frequência no Brasil. :-(

    A quantidade de mulheres muçulmanas de véu, habitantes ou turistas, também me impressionou. Eu não esperava ver tantos e curti a experiência exótica. Estava tão frio que a turistinha de país tropical aqui comprou uns lenços (de um imigrante indiano…) e ficou flanando toda embrulhada, à moda islâmica. ;-D

  7. Lucy says:

    Exatamente, Camila: é uma experiência exótica mesmo. A gente pensa: ué, não estou na França? Ocidente branco e católico? Sim, mas ali a coisa é mais diversa e, com certeza por isso mesmo, mais bonita!

  8. Lucy says:

    Você não sabe que engraçado que desde que vim morar aqui, fiquei sabendo que antepassados de vários amigos meus eram de Múrcia! Murcia é Espanha profunda, Camila, e com muita simpatia, aliás, porque o pessoal aqui é cheio de sorrisos!

  9. Lucy R. says:

    Cara chara,
    Tambem presenciei essa enorme imigraçao, especialmente do leste europeu,o qual os franceses tem certo receio,uma vez que na maioria das vezes ,invadem vias, metros,e que tb sao vistos(grande parte) como “voleurs”…Paris é sempre deslumbrante, porém o excesso de imigrantes em suas avenidas e boulevards ,tiram o pouco do “glamour” que encanta o mundo ainda! Bises, Lucy;Sao Jose dos Campos.

  10. Lucy says:

    Bem-vinda, Lucy R! Todo país tem mesmo seus preconceitos, né. Que pena! Obrigada pelo comentário!

  11. kátia simões says:

    Lucy, estou hoje em Paris e fui a Montmartre. Meu marido é formado em Gastronomia por prazer e fomos conhcer as boulangeries. A primeira estava mesmo fechado, nos restou a Coquelicot. A qualidade dos produtos é incontestável, o atendimento porém, um horror. Pensávamos que era por sermos brasileiros e por meu marido falar inglês e eu espanhol, francês, nenhum dos dois. Mas vimos que o mal-atendimento era geral. As “garotas” chefiadas por uma que dava “coices” para tudo que era lado, destratavm a todos. Nunca havia visto nada igual, isso porque vivem do turismo. Nem em N York tratam a spessoas assim Será que odeiam brasileiros. Voltei de lá muito chateada. Até porque fui ao balcão mostrar uma trta que queria, uma grosseira gritou comigo. Pode ? Decepção total, atendimento para mim é TUDO! Não recomendo o COQUELICOT, Gostaría d erepassar isso para o dono, mas não tem e-mail no site.

  12. Lucy says:

    Oi Kátia! Obrigada pelo comentário. Que pena que você não teve uma boa experiência lá. Com certeza, não foi por serem brasileiros. Nós não somos assim tão facilmente identificáveis. Eu ia a essa boulangerie tomar café quase todos os dias do mês inteiro que estive lá e nunca tive problema. Sim, o atendimento era lento, mas isso é normal em muitos lugares da Europa porque não costumam ter mão de obra ociosa, mas lógico, isso não explica um grito! Meu francês é bem mequetrefe e elas sabiam que eu nào sabia falar direito. Inclusive, uma vez eu estava lá e quis pagar com cartão e a máquina estava quebrada e foram super tranquilas porque me deixaram sair sem pagar e voltei depois. Tente falar com o dono, sim, porque essas coisas não podem suceder. Desejo melhor sorte em outros lugares e que curtam muito Paris!

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