O que aconteceu com meu espanhol?

11 · 18 · 2011

Mate e peineta

Dois anos e meio depois de me mudar para a Espanha, e de escrever aquele post no qual falava das minhas intenções de não perder o português como tinha me acontecido na Argentina, venho aqui contar os resultados.

Todos os meus amigos argentinos podem dar fé de que lá o meu espanhol era excelente. Peguei rápido e não demorou para eu sair falando como uma porteña mais. Quando cheguei aqui, a coisa mudou de figura e me encontrei com situações inusitadas. Para começar, eu abria a boca e as pessoas já me perguntavam “¿eres argentina?”. Bom, nada contra los hermanos, logicamente, mas não, eu sou brasileira! Aí as pessoas olhavam para a minha cara e não entendiam direito. Ou quando surgia alguma menção à Argentina logo olhavam para mim, mas aí ficavam confusos. Ou seja, meu castelhano portenho começou a atrapalhar minha própria identidade. Não dava.

Para piorar a situação, as pessoas não entendiam exatamente o significado de muitas palavras que eu usava. Primeiro me corrigiam falando “en castellano se dice…”, quando eu estava falando castellano, só que da Argentina. Aqui vão alguns exemplos bem comuns dos maiores problemas. Começando do básico: quando dois amigos argentinos se encontram dizem “hola, che, ¿qué hacés? (ou qué tal?)” e dois espanhóis se encontram e dizem “¡Hombre! ¿Y tú qué? (ou qué tal?)”, com suas variações lá e cá, mas o ‘hombre’ aqui não falta, seja você homem ou mulher. Uma coisa legal na Argentina se diz “copado/a”, na Espanha es “chulo” ou “guay”; o chamamento “meu” de São Paulo, usado do mesmo modo que o “che” na Argentina, aqui é inexistente, ou funciona com um “oye” ou um “acha” usado aqui em Múrcia (redução de “muchacha”), coisa que me nego a falar; na Argentina, é comum usar expressões como “me cago de frío” ou “me cago de miedo”, que quando eu falava aqui logo começavam a procurar um banheiro. Os hermanos falam muito “estoy podrido” quando querem dizer que estão cansados, de saco cheio; aqui eles acham a maior graça o meu “podrida”. Entendem, mas aqui não se usa. Uma palavra ótima da Argentina é “trucho” que serve para dizer que uma coisa é de má qualidade ou falsa. Aqui ainda não encontrei um sinônimo (e não porque aqui não haja coisas “truchas”).

Os nomes das comidas são muito diferentes também. Para começar, o almoço na Argentina é “almuerzo” enquanto que na Espanha, o “almuerzo” é uma refeição que se faz entre o café da manhã (desayuno – lá e cá) e “la comida”. Se algum hermano pergunta “¿qué vas a tomar?” ele quer dizer “o que você vai beber”, mas aqui “tomar” pode ser beber ou comer. A abobrinha na Argentina era “zapallito”; aquí é “calabacín”, a vagem era “chaucha” e aqui são “judías verdes”; uma torta salgada era “tarta” e a doce era “torta” e aqui é justamente o contrário; creme de leite era “crema” e agora para mim virou “nata líquida”, só para citar alguns exemplos entre centenas.

Aí existe outro problema: o gramatical. Na Argentina, principalmente em Buenos Aires, se usa “vos” em vez de “tú”. Então, lá é “vos sos” e aqui é “tú eres”. Até aí, tudo bem porque o tu é relativamente fácil de pegar para nós, lusófonos. O problema chega no “vosotros”! Os hermanos, para falar “vocês” dizem “ustedes”. Baba! Aqui, eles usam o “vosotros”. Então, se lá era “ustedes hablan” aqui é “vosotros hablais”. Eu até poderia manter o “vos”, embora soe um pouco ridículo, já que é uma forma antiga do castelhano, mas o “ustedes” não dava para manter. Aqui na Espanha eles usam “ustedes” para um tratamento excessivamente formal, que quase não é usado no dia a dia. Além disso, estão os verbos no passado que aqui são usados na forma composta (“he ido al banco”, para fui ao banco) enquanto na Argentina eles usam a forma simples (“fui al banco”).

Podemos passar rapidamente também na questão dos palavrões. Na Argentina, “coger” é realizar o ato sexual (vulgo, f****), mas aqui na Espanha se “coge un autobús”, “coge una gripe”, “coge algo que se ha caído al suelo”, etc. É como “pegar” no Brasil. “Concha”, na Argentina, é o órgão sexual feminino, e aqui é um nome de mulher (apelido de Concepción) e de uma amiga querida. Aqui, o órgão sexual masculino é uma “polla”, lá é uma “pija”. Tudo bem, são palavras que a gente não usa assim em público e não dá para confundir, só que “saia” (prenda feminina) na Argentina é “pollera” e com essa palavra sim passei uns bons apuros.

E não para por aí. Aqui eles pronunciam o “z” e o “c” colocando a língua entre os dentes, como se tivessem a língua presa. O problema está em que eles acham errado pronunciar o “z” e o “c” com som de “s”, como se faz em TODA a América Latina e todo o mundo se entende muito bem. Por exemplo, quando digo que meu nome é Lucy, se eu não pronuncio o “c” do jeito deles, eles são capazes de me perguntar se se escreve com “s”! Isso entre alguns outros sons, como os do “y” e “ll”.

Consequência disso tudo: meu espanhol piorou! Algumas pessoas me dizem que eu deveria falar meu espanhol argentino mesmo, e eu até falaria se todo o mundo entendesse e não achasse que eu estou misturando com palavras do português. Ou pior ainda, se não me confundissem com argentina (insisto: não gostaria de ser confundida com nenhuma outra nacionalidade). Como estrangeira, eu devo aprender e falar o espanhol daqui da melhor forma possível. Além do mais, as pessoas devem me entender. Não adianta eu tentar comprar “papas” aqui quando o que se vende são “patatas”. É todo um vocabulário novo, expressões novas, forma nova de se comunicar. Aliás, diga-se de passagem, ainda bem que o espanhol é muito mais fácil para a gente se relacionar do que os argentinos, que são bastante “retorcidos”, como eles mesmos dizem.

Porém, agora eu sinto que eu falo (além do inglês) três idiomas: espanhol de lá, espanhol de cá e português. De certo modo, é como se eu tivesse ido para Portugal e estivesse tentando falar um português que não é o meu, e isso implica um esforço enorme, porque agora minha cabeça lida com três línguas diariamente. Outro dia, falando com uma amiga argentina, ela me disse: “Lucy, ya estás hablando como los gallegos” (os “gallegos” para eles são os espanhóis), mas aqui dizem que ainda tenho sotaque argentino.

Há dois anos atrás eu disse “cair no poço não posso”, mas terminei caindo em outro poço que eu não esperava. Lógico, as pessoas aqui dizem que eu falo muito bem e tal, mas eu sei o esforço que é para mim não soltar um “che”, un “viste?”, un “dale” em vez de “vale”, entre tantas outras coisas. A vantagem é que para mim é um prazer aprender a falar o espanhol de cá porque realmente é mais bonito, é muito criativo e tem umas expressões engraçadíssimas (tema para outro post e, para começar, vejam o vídeo abaixo sobre a palavra “cojones”). Então, sinto que vou enriquecendo meu vocabulário. Enquanto isso, fico nesse limbo linguístico, e tenho poucas esperanças de que melhore muito no curto prazo.

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16 comentários

  1. […] Quem quiser ler a continuação deste post dois anos e meio depois, veja “O que aconteceu com meu espanhol?” (de 20/11/2011) Be Sociable, […]

  2. Marinalva Santos Leite says:

    Oi Lu. Adorei o texto. Isto eu estava percebendo com os amigos que tenho , naquele curso, cada exercício que eu pedia para eles corrigir, cada um corrigia de um jeito.Como voce disse, fiquei baratinada, afinal qual é o certo? mas agora entendi. O pessoal da Argentina corrige de um jeito e da Espanha de outro. Abraços.

  3. Marinalva Santos Leite says:

    Lú Gostei do vídeo também.

  4. Bia says:

    Gostei muito do seu post.
    Moro no Paraguay e as expressoes usadas aqui tambem sao diferentes da Argentina, apesar que muitas sao copiadas de lá.

  5. Lucy says:

    Olá Bia! Quando eu morava na Argentina, tinha uma secretária do lar que era do Paraguay, ela era maravilhosa, mas quando eu a escutava falar com outros paraguaios, misturando guarani com espanhol, eu não entendi nada. Aliás, ela fazia uma “sopa paraguaya” que era uma loucura! 🙂 Abraço.

  6. Lucy says:

    Ah, sim, tia, pode ser isso mesmo. Mas na verdade, a gramática deveria ser geral para todo o mundo. Eles têm a Real Academia de Letras que rege o espanhol de todos os países, sempre aceitando as variantes de cada lugar. Beijão!

  7. Lilian says:

    Oi, Lucy
    Me identifiquei um bocado com esse post porque logo ao chegar ao Japão tive uma experiência um pouco parecida. Meus pais faleceram quando eu era pequena e fui criada pelos meus avós maternos, japoneses, até os oito anos de idade, falando o idioma nipônico em casa. Ao chegar ao Japão como bolsista, depois da faculdade no Rio, fiquei pasma ao descobrir que o meu japonês era arcaico. Aos 22 anos, eu falava como os meus avós, septuagenários na época. Passei por um intensivão para me atualizar!

  8. Lucy says:

    Nossa, Lilian, deve ter sido engraçado! Quando voltei pro Brasil, depois de morar 7 anos na Argentina, eu descobri que as gírias que eu sabia já não se usavam mais. Isso que eu ia pro Brasil todo o ano… mas na época não tinha tanta internet e Skype como hoje e fiquei para trás 🙂 Também tive que me atualizar!

  9. Daniela says:

    Eu li esse post tantas vezes, marquei como não lido pra voltar a ler e vir aqui comentar. E hoje, uns 10 dias depois da primeira vez, ainda não sei o que escrever. “Brilhante”, resume. Ou “adorei”. Ou “falou a um cantinho bem reservado da minha alma”

    Parabéns, Lucy.

  10. Lucy says:

    Oi Daniela, obrigada! Que bom que você gostou! Seu blog andou parado um tempo, não? Vou dar uma volta por lá de novo! Besitos

  11. Bernardo says:

    Ola Lucy, gostei muito deste post. Muito bom mesmo.
    Não pare de escrever e de nos contar as novidades.
    Eu próprio estou pensando em ir estudar para Espanha, mas tenho algum receio.
    Abraços!

  12. Lucy says:

    Obrigada, Martinho. Estudar é sempre bom, no lugar que for! Abraço!

  13. Bernardo says:

    Como é viver em Espanha?
    A mudança custoulhe muito?
    Obrigado!!

  14. Sandra says:

    Oi Lucy! Adorei o seu post! Morei na Espanha há 17 anos atrás, onde namorei um rapaz de lá e agora voltamos o namoro e desde então passo minhas férias onde ele mora( Palamós-Girona) Sempre me interessei por tudo que fosse reelacionado à Espanha. Acho que essa mudança pra vc foi positiva, porque o espanhol da Espanha é o mais correto. Tenho muita vontade de morar aí, mas tenho meu trabalho e meu filho aqui no Brasil e por enquanto não dá. Da última vez que fui à Espanha(mês passado) visitei Andaluzia e gostei muito! Boa sorte pra você!! Bjos

  15. Sara says:

    Muito interessante esse texto para mim que estudo espanhol continuamente!
    Choque cultural tem seus lados positivos e negativos, sempre.

  16. Lucy says:

    Isso mesmo, Sara, mas eu diria que sempre é mais positivo do que negativo. Conviver com várias culturas é uma maravilha. Um abraço.

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