O gueto de Veneza

10 · 16 · 2011

O prédio da antiga aduana de Veneza

Os guetos não foram inventados pelos alemães na Segunda Guerra, mas pelos venezianos ou talvez por outros antes deles. Veneza virou Veneza entre os séculos XI e XV quando a proximidade com as rotas do Oriente foi transformando a cidade em um polo rico e exuberante, uma metrópole multicultural onde se encontravam mercadores de toda a Europa, da Turquia, Grécia, norte da África e, lógico, muitos judeus (já no século XVI, inclusive aqueles que eram expulsos da Espanha e de Portugal). Como os cristãos não podiam praticar a usura (mas nunca deixaram de precisar de dinheiro emprestado aos usureiros), nada mais prático do que deixar essa tarefa aos judeus. Lógico, naquela época (e até hoje, certamente), a desmesura com o dinheiro estava relacionada ao pecado da carne e assim, aos poucos, os judeus eram considerados sujos, impuros, e até rabo de porco se dizia eles tinham. A criatividade humana não tem limite!

“O estudo do preconceito religioso não é um exercício de racionalidade. O desejo de pureza, escreveu a antropóloga Mary Douglas, expressa os medos de uma sociedade. […] Os venezianos acreditavam estar ameaçados pelo declínio sensual e, deste modo, colocaram sobre os judeus a auto-aversão que sentiam.” (Richard Sennett)

Mandar os judeus embora eles não podiam, não só porque precisavam dos empréstimos, mas também porque os judeus pagavam mais impostos do que qualquer um. O que fizeram então? Segregaram. Confinaram-nos em um gueto. A palavra gueto provem de gettare (derramar), ou ghetto, que naquela época se referia às fundições. O Ghetto Nuevo e o Ghetto Vecchio eram as zonas de fundição de Veneza e como a primeira podia ser facilmente “lacrada” transferiram para ali todos os judeus da região. No cair da tarde, fechavam os portões para abri-los novamente no dia seguinte, quando os judeus podiam sair e viver na cidade como outra pessoa qualquer (só que portando alguma marca distintiva: um pano amarelo no braço, ou um lenço amarelo, etc.).

Cinco janelas para a sinagoga, Veneza

Mas não só os judeus eram confinados. Havia também um gueto para os alemães (principalmente para os que aderiram à Reforma), para os turcos, gregos, etc. No gueto, os judeus viviam como podiam, mas, dentro de tudo, dignamente. Eles não tinham direito a construir prédios e é por isso que, para solucionar problemas de espaço, eles iam acrescentando andares em cima dos prédios que existiam. Isso explica por que em Canareggio, onde estão os Ghetto Nuevo e Vecchio, estão os prédios mais altos de Veneza.

Prédio altíssimo em Veneza

Eles também não podiam construir sinagogas. Por isso, nos prédios que usavam como sinagoga eles construíam cinco janelas, para que pudessem ser identificadas de fora. Durante a peste, os judeus, que tradicionalmente também se dedicaram à medicina, mal podiam sair do gueto. Os médicos que podiam sair para tratar pacientes cristão deviam sair cobertos por uma capa e uma máscara como as da foto abaixo.

Hoje são poucos os judeus que moram em Veneza, mas você pode visitar o gueto, fazer uma visita guiada pelas três sinagogas antigas e aprender um pouco mais sobre a história. Ao vermos a cidade com suas gôndolas tão românticas esquecemos que, como toda cidade, ela está construída sobre os ossos de miseráveis. A história do homem é também a história de sua crueldade, e sabemos que até muito pouco tempo atrás essa história se repetia, e sempre pode se repetir se a banalidade continuar prevalecendo sobre o conhecimento.

Para ler mais:

Carne e Pedra – O  Corpo e a Cidade na Civilização Ocidental, Richart Sennett. Neste livro ele conta não só a história do gueto de Veneza, mas também explica o contexto histórico que deu origem à obra de Shakespeare, O Mercador de Veneza.

Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt, que conta a história do anti-semitismo desde tempos imemoriais até o século XX.

O mercador de Veneza, William Shakespeare. Antonio pede ao judeu Shylock 3000 ducados emprestados para que seu amigo, Bassanio, devolva o dinheiro em três meses. Caso Bassanio não possa pagar, Shylock exige uma libra de carne de Antonio.

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5 comentários

  1. Marinalva Santos Leite says:

    Lu, adorei o texto. Só assim vou recordando minhas aulas de história e conhecendo bem mais pelos seus relatos.Bjs

  2. Caramba, parabéns pelo site! Estou visitando a Itàlia e procurava informaçòes sobre os lugares que tenho visto – Veneza é um deles. Bem, um parabéns por ter juntado em um ùnico texto uma òtima escrita, informaçào històrica e uma citaçào super-boa!

  3. Lucy says:

    Obrigada, Thaisa! Boa viagem para você!

  4. Henry says:

    Amanha visitaremos o Ghetto…muita curiosidade

  5. Paulo Alberto Caliman Borges says:

    Estive no Gueto Vecchio anos atrás, pois a famiglia de minha mãe e descente de judeus do Gueto de Veneza, muitas emoções…

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