O adeus aos touros

9 · 25 · 2011

José Tomás, o torero do momento

Hoje se trava a última batalha na Plaza de Toros “El monumental”, em Barcelona. As “corridas”, como se chamam aqui as touradas, foram proibidas na Catalunha. Lendo um especial que saiu no jornal sobre o assunto, quase chorei de emoção.

Até hoje não tive coragem de ir “a los toros”. Logo que cheguei, tive a intenção, apesar de, antemão, achar a festa uma barbárie estúpida. Quando tive minha primeira oportunidade de ver uma “corrida”, fiquei sabendo também que eles matam até oito touros em uma só tarde. Eu não consigo ver nem um só animal sendo morto pela televisão. Além do mais, nas “plazas de toros” eles não providenciam saquinhos especiais para as intolerâncias estomacais, como nos aviões. Então, até hoje não fui.

Acredito que antes de eu vir, eu pensava que era uma festa retrógrada, celebrada por setentões ignorantes (talvez pensasse, inclusive, que iriam homens apenas ou principalmente), que logo entraria em decadência. Quanto engano! A paixão pelos touros é nacional e, para os aficcionados, trata-se, sim, de uma arte. Ouvir um fã dos touros falar de uma “faena” é tão emocionante quanto incompreensível. O mundo da tauromaquia venera os touros (animais que são criados com o maior primor e preparados para a “lidia” (de lidar) como força vital. Existe um amor e um respeito pelo animal. Quando você escuta várias pessoas descrevendo as mesmas emoções, nas quais aparecem palavras como “baile”, “arte”, “tradición”, “oreja” (orelha), “respeto”, todas para falar de um espetáculo público no qual um homem franzino mata um animal de 500 kg, a gente percebe que se trata de uma dimensão paralela, sobre a qual é melhor se abster de opinar. São homens, mulheres, jovens, velhos, gente muito bem educada e decente os que amam os touros, vão às “corridas” ou assistem pela televisão. Aliás, um dos argumentos dos “taurinos” é que Ernest Hemingway também era fanático pelos touros… e é verdade.

Além disso, entre tantas coisas novas que tive que incorporar ao meu espanhol, vindo da Argentina para a Espanha, foi todo um vocabulário “taurino” impressionante. Por exemplo, quando existe pressão para que alguma coisa seja feita, aqui se diz “que te pilla el toro”; se alguém é muito hábil se diz que é um “torero”; antes de começar alguma atividade (difícil, talvez, algo que inclusive chamariam de “faena”), eles dizem “suerte y al toro!”; o verbo “torear” é usado até pelos anti-taurinos para explicar como lidaram com uma situação. Aqui os touros estão na boca do povo. E mais ainda: os muy fanáticos dizem que o mapa da Espanha tem o formato de uma pele de touro aberta e, por isso, chamam seu país de “piel de toro”, como a Itália é chamada de “bota”.

O corpo a corpo

O corpo a corpo

Por um lado, é claro que a festa é pura barbárie, mas por outro, para ser coerente com uma opinião contra as “corridas” em defesa dos animais (como supostamente foi o caso na Catalunha), eu deveria, também, ser vegetariana. Tenho certeza de que muitos mais animais morrem para ir à nossa mesa do que os que morrem nas Plazas. Além disso, ser contra os rodeios, os churrascos, e outras celebrações em cujo cerne está o touro, vivo ou morto.

Mais do que acabar com a festa, eu acho que deveria haver mais igualdade. Morrem muitos mais touros do que toureiros. Lógico, nesse espetáculo que mostra a supremacia da inteligência humana sobre o mero instinto animal, não teria muita graça se o toureiro saísse perdendo. Seria uma derrota para toda a humanidade. Ou não, como diria o Caetano. Talvez se morressem mais toureiros o homem aceitaria sua condição mais bestial e irracional que, afinal de contas, também faz parte da festa. O matiz seria outro e o touro não poderia (por pura incapacidade motriz) cortar as orelhas do toureiro (porque quando o toureiro faz uma boa faena, matando o touro sem que ele sofra demais, ou seja, espetando a “banderilla” no lugar certo, o árbitro lhe dá o direito de cortar uma orelha do touro e, se o cara for um gênio absoluto dessa “arte”, ele pode cortar até as duas orelhas do touro).

Protesto contra as corridas de touros

Os “encierros de San Fermín”, outra festa taurina incompreensível, também são venerados e, essa sim, acho a mais bizarra das celebrações. Nela, fica uma multidão de corredores a postos nas ruas. Soltam os touros, que saem correndo detrás do povo e é um salve-se quem puder. Existe todo um cuidado para deixar apenas os corredores especialistas (!!!), porque sempre tem algum inglês embriagado que, depois de correr algumas maratonas, acha que pode correr dos touros. Sempre sai algum de ambulância, mas até que morre bem menos gente do que eu esperaria. O que faz essas pessoas quererem correr dos touros é algo que torna cada um de nós, seres humanos, únicos, incompreensíveis e profundamente estranhos.

Encierro de San Fermín

Encierro de San Fermín

A tauromaquia está repleta de símbolos, tradições e valores de mais de mil anos de história que, apesar desse adeus em Barcelona estão longe de terminar em toda a Espanha. Alguns dizem que a decisão de proibir as “corridas” na Catalunha não tem a ver com uma defesa dos animais, mas sim com uma atitude anti-espanhola (afirmando a independência catalã do resto do país). E outros reclamam é que as “corridas” estão sendo cada vez mais realizadas na França e que, qualquer dia, elas mudam de nacionalidade (como os imigrantes que se nacionalizam em outro país por conveniência, digo eu). Talvez, nesta altura do campeonato, a humanidade deveria estar um pouco mais segura de si quanto à sua capacidade de dominar o mundo todo, quem dirá dominar um só animal, sem precisar se gabar, com pompa e muito sangue, da sua força e inteligência. Mas quem, em sã consciência, acha o homem um animal tão inteligente assim?

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9 comentários

  1. Marlene says:

    Acho que a Cataluña está de parabéns por adotar essa proibição e acabar com séculos de uma tradição que não dá mais para ser aceita hoje em dia. Tudo quem que mudar, não é porque é tradição que deve ser permanente. Antigamente, caçar era um hobby dos adultos ricos, matar passarinho com estilingue era hobby dos meninos pobres. Hoje nada disso é visto como razoável, ainda bem.

    E como pode ser visto como razoável a atitude de alguém que ama os touros e se diverte ao vê-los sendo torturados até à morte numa arena? Está certo que a contradição humana é um fato incontestável, mas, por favor, tudo tem limite! Espero que toda a Espanha adote logo o exemplo da Cataluña e que as novas gerações mudem seu modo de pensar, passando a respeitar mais os animais. Um dia isso tem que começar, por que não já?

  2. Marlene says:

    E acho mais uma coisa: os toureiros, com suas bundinhas durinhas e irrepreensíveis, podem ir dançar flamenco, pra não desperdiçar o belo físico que moldaram. Vão causar frisson entre a mulherada e vão deixar em paz os pobres touros.

  3. Lucy says:

    Mãe, você é muito figura! 😀 Eu estou de acordo com você e acho que estou mais para ir a uma manifestação anti-taurina que a uma “fiesta de toros”, mas isso é simplificar muito as coisas. Como eu disse, quem quer defender mesmo os direitos dos animais têm que ser vegetariano também, porque a forma como eles tratam as vacas nos abatedouros não é lá muito digna, nem como enchem os frangos de hormônios, enfim… Quando você vier aqui e conversar com um taurino, você verá que é uma paixão que também merece respeito. Além do mais, é alvo fácil demais! E essas festas de peão não maltratam os animais? Eu não sou pró-tauromaquia, mas é muito difícil, na minha opinião, não entender também os argumentos do outro lado. Quanto à bundinha dos toureiros, seu argumento é indiscutível! Assino embaixo! 🙂

  4. Renilse says:

    Lucy,

    Demorei mas apareci por aqui!! Para mim, a grande problemática é ver o maltrato ao animal,seja ele qual for mas respeito a tradição.

    Beijos

  5. Anlene says:

    Oi Lucy, hoje há um post sobre seu blog na página do Facebook do Mundo Pequeno (índice de blogs de brasileiros que moram no exterior): https://www.facebook.com/#!/mundopequeno
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    Um abraço!

  6. Lilian says:

    Oi, Lucy
    Sempre aprendo com seus textos. Na minha ignorância, associava as touradas exclusivamente à Espanha, não sabia da França (e de Portugal). Fico tentando imaginar o que leva uma pessoa a escolher esse métier sádico e sanguinário em pleno século 21. Qual será o perfil de quem se dispõe a freqüentar essa escola? Rapazes do interior? Membros da elite? Filhos de peixe?
    Quando reli sobre os seus setentões da audiência, pensei no rei Juan Carlos, abertamente defensor das corridas…
    Na Wikipedia, fiquei surpresa ao descobrir que temos uma variação na Califórnia também (nunca tinha ouvido falar). Mas sem sangue e morte.
    Vivendo e aprendendo.
    Beijos!

  7. Lucy says:

    Lilian, membros da elite os toureiros não são, lógico. São caras que, na minha opinião, poderiam estar fazendo qualquer outro trabalho, mas gostam dos touros. Aqui tem muita paixão pelos touros e alguns inclusive já me disseram que sabem que não está certo o que fazem com os bichos, mas vão além disso. Os toureiros da Espanha muitas vezes vão “tourear” no México também. Parece que lá a coisa é forte. De todos modos, não é uma coisa que dá para entender bem nem morando aqui, e menos morando fora daqui. É um mistério! 🙂

  8. TARSO VAZ says:

    Lucy.

    Excelente seu artigo. Imparcial e informativo. Como tem que ser…parabéns.
    Apenas como complemento, ressalto a barbárie que ocorre na cidade de Medinaceli (España).
    Lá eles põem buchas de pano, embebidas de óleo, nos chifres dos touros e tocam fogo…
    O bicho sai “endiabrado” pelas ruas escuras da cidade, correndo atrás de todos e tentando se livrar do fogo que queima e cai sobre seus olhos…
    Terrível….
    Será que não vem daí a nossa lenda do Boitatá?

  9. Lucy says:

    É verdade, Tarso, barbárie mesmo! Há várias festas com touros na Espanha, uma mais cruel que outra. Um horror, não? Abraço e obrigada pela visita!

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