Milão, para apreciar o espaço urbano

8 · 8 · 2011

Planejando a viagem de verão à Itália, conversamos com inúmeras pessoas que coincidiam em uma coisa: “que sem graça é Milão, com três dias no máximo vocês veem tudo”. Ainda estamos tentando nos explicar o porquê dessa apreciação tão negativa de uma das grandes capitais da Europa. E mais, como uma cidade mundialmente conhecida pela moda e pelo design, ou seja, por um interesse na beleza, poderia ser vista em apenas três dias (sendo que eu recomendo dois dias inteiros para ver Múrcia). Este post é o resultado de conversas que tive para tentar entender isso e está aberto ao debate: quem tiver uma boa explicação para isso, por favor, comente.

Primeiro, é verdade que, comparada a Roma, por exemplo, Milão tem poucos pontos turísticos daqueles reconhecíveis nas fotos, além do Duomo e da Galeria Vittorio Emanuele. Mas por que uma cidade precisa ser um parque de atrações turísticas para ser interessante?

Brera - Milão

Brera - Milão

Segundo, por algum motivo que vai além da minha compreensão turismo é sinônimo de consumo. Nesse sentido, Milão pode ser um paraíso ou um inferno. A indústria do luxo que move Milão e, até certo ponto, transforma algumas partes dela em não lugares, ruas cheias de loja que poderiam estar ali ou em qualquer outra cidade, com as mesmas marcas, as mesmas caras magras e belas carregando sacolas enormes, além das turistas muçulmanas com véus e bolsas da Louis Vitton, que também esbajam seus petrodólares por Roma, Paris e Londres. No quadrilatero d’oro, apesar de certa mesmice, há beleza, criatividade, design, arte que os desconhecedores da moda podem apreciar e desfrutar (quando a carteira não está o suficientemente cheia para comprar). A contraparte “pobre”, outro não lugar, empregnada de lojas que vendem as mesmas coisas que a Gran Via de Murcia e de qualquer cidade grande, é o Corso Buenos Aires. Ali, Zara, Mango, Stradivarius e outras mais econômicas que compartilham o gosto pela música alta que transforma a loja em uma minibalada. Consequência disso: o que mais tem em Milão são turistas comprando.

Navigli - Milão

Navigli - Milão

Além dos pontos turísticos e de consumo (são a mesma coisa?), Milão é uma cidade cheia bairros gostosos para passear, com arquitetura mais moderna ou tradicional, com parques lindos, jardins, cafés, becos, livrarias, gente elegante para apreciar, restaurantes deliciosos, bares descolados que servem uns aperitivi de enlouquecer. Por exemplo, o Parco Sempione, enorme e belíssimo, com cafés e sombra para um piquenique ou, a partir das 6 da tarde, o Corso Sempione cheio de lugares deliciosos para tomar um aperitivo (você paga uma bebida e se serve a vontade de um buffet cheio de comidas gostosas); a livraria de arte do G. Armani tem tudo para quem gosta não só de moda e design, mas também arte e fotografia; caminhar pelo Corso Garibaldi até o Anteo Spazio Cinema para ver um filme legendado (como na Espanha, a maioria dos cinemas só oferece filmes dublados) ou senão dar um passeio pelo Giardinni Pubblici antes de ir à Cinemateca local; por que não ir à Ópera ou a um show de rock, ou provar várias cotolette milanese até encontrar a sua preferida; sentar para observar os punks que passam pela praça da Basilica San Lorenzo Maggiore, enquanto você toma uma grappa diante da Columnata de San Lorenzo; visitar as inúmeras galerias de arte moderna; tomar um café na Villa Necchi-Campiglio; enfim, tem de tudo para todos os gostos, como uma boa cidade grande.

Villa Necchi-Campiglio - Milão

Villa Necchi-Campiglio - Milão

Parece ser que o turismo tradicional não aprecia a cidade pelo que ela é, não valoriza o espaço urbano pelo que ele oferece nem o estilo de vida que ele proporciona. Reduzir uma cidade aos seus pontos turísticos nos priva, primeiro, do conjunto, dos arredores, do ambiente onde aquela atração turística se encontra. Além disso, não nos dá tempo para perambular, ou flanar e, consequentemente, observar. Nem sempre temos a oportunidade de conhecer locais, o que é uma pena, mas um simples capuccino na esquina de manhã, com a orelha em pé e os olhos atentos já nos enchem de anedotas para contar. Essa é, para mim, uma das maiores vantagens de alugar um apartamento em vez de ficar em hotel: conhecer o pessoal do bairro, ir ao supermercado, à farmácia, ao correio. Em tão pouco tempo como sete míseros dias, já virei habitué de um café do bairro (hábito maldito, como disse o Bernhard, mas inevitável para os que gostamos disso) e lá encontrava toda manhã o grupo de senhores aposentados que se juntavam para falar da vida.

Nossa rua em Milão

Nossa rua em Milão

Curtir as atrações turísticas clássicas como museus, ruínas, igrejas, etc não substitui o encanto do espaço público, muito pelo contrário. Só é necessário ter tempo, olhos e orelhas atentos. Apesar de tudo o que nos falaram em contra de Milão, essa é uma cidade daquelas que pensei “aqui eu moraria”. Sete dias foram poucos: teremos que voltar por mais.

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Para quem quiser dicas de Milão, visitem o blog da Érica, diretamente de Milão. Érica, quem sabe nos veremos na próxima Feira do Móvel? 🙂

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7 comentários

  1. Renilse says:

    Lucy,

    Faz um tempinho que aprendi que turismo não é maratona!!! Prefiro conhecer os lugares com calma, ainda que para isso tenha que deixar de conhecer aquele ponto turístico imperdível anunciado pelos famosos roteiros “fabricados” pelas agencias especializadas em viagens.

    Adorei seu relato de Milão!!!Original como poucos…

    Um beijo grande!!

    Renilse

  2. Julia says:

    Adorei essa reflexao de espaço turistico – consumo – conhecer uma cidade de verdade. Eu qdo vou a um lugar, adoro ir ao supermercado, eh um lugar que reflete um pouco das pessoas, seus habitos e a gente se sente tb um pouco vivendo isso, adoro adoro. Um colega aqui parisiense viu minhas fotos de Paris no FB e disse “eh, vc conheceu uma Paris turistica, se um dia vc voltar, eu le levo pra conhecer Paris de verdade”.

  3. Oi Lucy,

    Você tem razão quando diz que as pessoas não sabem valorizar a beleza de Milão. Aliás, eu acho que quando vamos visitar um local não podemos ter preconceitos (seja positivos que negativos). Quem come uma pizza na Itália e diz que a pizza não é boa pois não é alta de tanto recheio como a do Brasil, nem se dá o direito de conhecer novas coisas. Cada lugar é único e belo por sua particularidade. É lógico que ninguém é obrigado a gostar de algo, mas vale a pena saber vivenciar uma viagem. Roma é sensacional e maravilhosa pela história, pelos pontos turísticos. São Paulo é bonita por sua noite, por sua vida. Paris é maravilhosa por sua história, pelo Senna, pelo fascinio que transmite. A Toscana é sensacional por seus campos.

    Então acho que você tem razão, conhecer um lugar não é ver os pontos turísticos, mas poder sentir um pouquinho da vida e da rotina de quem mora lá. Eu por exemplo passei somente um final de semana em Paris. Sim, fiz essa loucura e amei, mas sei que terei que voltar com tempo para sentir a verdadeira Paris. De tudo o que eu vi por lá, a parte que mais gostei foi de me sentar perto do Senna, em um ponto de encontro dos franceses e observar. Ali senti um pouquinho do que é Paris.

    Antes de morar em Milão, eu vivia em uma cidade pequena na Italia. Quando pisei em Milão pela primeira vez me apaixonei, não pelos pontos turísticos, mas pelo charme e ritmo da cidade e elegância dos habitantes. Até o fato de ver o metrô cheio de gente que viaja lendo livros, revistas, jornais e diga-se de passagem que às vezes paro para observar os vagões e a maioria das pessoas está concentrada em uma história ou notícia. Isso é Milão. Milão é muito mais do que a Vitório Emanuele e a maravilhosa Duomo. Milão é um pedaço imenso do que Da Vinci deixou como herança para quem vive por aqui ou para quem sabe enxergar a cidade. Não é somente a capital da moda e do design. É história, é dinamismo, é trabalho, são seus cafés charmosos.

    Quem quer somente ver os pontos turísticos mais importantes não precisa de tantos dias, mas acho que a boa viagem não é somente uma foto para dizer que foi em um lugar. Viajar é poder simplesmente VIAJAR na cultura, nos hábitos, na língua, na gastronomia.

    Como toda cidade tem seus problemas, mas eu adoro! Para ser perfeita precisaria ter praia.

  4. Leonora says:

    O maior encanto de Milão são as suas ruas vibrantes e enérgicas, como aquelas que toda a metrópole deve ter. Adorei caminhar para lá e para cá, sem destino certo, somente apreciando a beleza e organização desta cidade. Me emocionei em frente ao Teatro Scala, pois meu pai esteve ali, para apresentação da ópera Lucia di Lammermoor, protagonizada por Maria Callas. Segundo ele conta, ao final do espetáculo, precisou ser carregado para fora pelos amigos, de tanta emoção que sentiu.
    Também gostei muito da noite milanesa, embora tudo custasse muito caro.
    A parte chata é que não consegui marcar hora para ir ao convento de Santa Maria delle Grazie ver de perto uma das obras mais famosas da humanidade: “A última ceia”, mas fica aí a motivação para um breve retorno!

  5. Lucy says:

    Renilse, exatamente: o turismo é fabricado! E se descuidar a gente só conhece o que eles mandam, não o que a gente gosta.

    Juju, por isso nós alugamos apartamentos, acho: para irmos ao supermercado!

    Erica, como disse, eu também moraria em Milão sem problemas 🙂 Achei tudo super organizado, limpo, não tem aquela multidão de turistas que tem em Roma, os lugares são elegantes, as pessoas simpáticas, enfim, adorei!

    Cuma, deixamos a Scala para a próxima vez, porque não era temporada. Deve ter sido emocionante mesmo ver a Maria Callas lá, hein! Lindo! Ah, e também não vimos “A última ceia”, não conseguimos entrada, e como íamos nos esbaldar aqui em Firenze, não nos importou muito.

  6. oi Lucy,
    seu blog eh sensacional!!! parabens. muito charmoso e com um conteudo interessante.
    cheguei a voce pelo grupo de tradutores.
    abracos
    Kalina

  7. Lucy says:

    Oi Kalina, seja bem-vinda! Vou dar uma olhada no seu blog também 🙂 Abraços!

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