Inferno em Florença

9 · 10 · 2011

Dante, Santa Croce, Firenze

Alguns livros pertencem às suas cidades, como um monumento público, um parque, um memorial, como o Cristo Redentor ao Rio de Janeiro. O ideal seria ler “Dubliners” em Dublim, “Paris é uma festa” em Paris, “A trilogia de Nova York” em Nova York, como tantos outros livros nos quais a cidade é um personagem mais (como Woody Allen consegue fazer tão bem no cinema). Só assim, além de obra de arte,  o livro se transforma em um mapa ou guia para se andar pela cidade, abrindo nossos olhos para novos lugares e ruas que, na maioria das vezes, estão livres (felizmente) da voragem turística.

Também existe um prazer ao reconhecer os lugares mencionados no livro, um café ou uma esquina ou um bar, saber que ao virar aquela rua existe uma igreja e não um abismo. É uma cumplicidade entre o leitor e o escritor que vai além da ficção, na qual se reconhece o que há de real por trás de uma trama: uma cidade que inspirou e deu vida e, ao mesmo tempo, é eternizada em páginas que, infelizmente, muita gente não lê. Por isso é também um prazer com sabor a exclusividade, a gourmandice. Afinal, Macondo ou Yoknapatawpha sempre nos inflam de imaginação e criatividade, mas deixam a tristeza de não existirem.

Foi essa cumplicidade e esse prazer que senti ao reler o Inferno, de Dante Alighieri, em Florença. Embora Dante não escrevera sua Comédia ali, pois já estava em seu desterro, Florença era sua pátria e foi a língua de Dante que veio, posteriormente, a unificar (até onde isso foi e é possível) a região sobre um “único” italiano. Ao descer aos infernos, acompanhado pelo seu poeta favorito, Virgilio, Dante vai encontrando personalidades da época, conhecidos, nomes e sobrenomes que encontramos nas ruas da cidade. Não só isso, a obra de Dante foi tão importante em sua época que a forma de representar o inferno, adotada pela igreja católica, se alimentou da criatividade da Comédia. Assim, ao visitar igrejas, baptistérios, museus, Dante aparece representado uma e outra vez; não só ele mesmo, mas também as cenas horripilantes do seu percurso junto ao poeta. O baptistério de San Giovanni, onde ele foi batizado, o túmulo de Beatrice, sua musa, o Palazzo de Bargello, onde se proclamou o desterro do poeta, o túmulo de Bruneto Lattini (professor de Dante) na Santa Maria Maggiore, e, o que é mais maravilhoso ainda, os afrescos Giotto, supostamente amigo de Dante.

Túmulo de Beatrice, Firenze

Inferno, a primeira parte da Comédia (que depois passou a ser também Divina), foi escrito entre 1304 e 1307. A distância que nos separa dessa época torna praticamente impossível apreciar, dentro do nosso conhecimento mediano, não acadêmico, uma obra medieval sem algum comentador ou auxílio. Não quer dizer que o poema seja incompreensível; porém, existem referências históricas, iconográficas e religiosas que se perderam nos nossos dias. Entre os séculos XIII e XIV, qualquer pessoa razoavelmente culta sabia latim, às vezes grego, conhecia a obra dos poetas e gregos clássicos, traduzidos pela Escola de Toledo, centro europeu de tradução na Idade Média, conhecia Ovídio, Platão, Aristóteles, Homero; conhecia também a iconografia cristã, os martírios dos santos, como eles eram representados pictoricamente. Ou seja, havia todo um mundo que nos é alheio hoje, muito além, lógico, dos conflitos políticos e sociais que são igualmente importantes para Dante (e que o levaram ao desterro).

La Divina Comedia, Dante, ilustrada por Boticelli

Por isso, era fundamental, para ler e desfrutar realmente da Comédia, um professor ou um “Virgílio” que me guiasse por esse mundo antigo. Então, munida, primeiro, da edição bilíngue da Seix Barral (traduzida e anotada por Ángel Crespo) e, segundo, do meu iPhone (com iTunes U), baixei um curso delicioso da Yale (Open Yale Courses) do Giuseppe Mazzotta, professor apaixonado e teatral como qualquer italiano que se preze, e reli o Inferno (tinha lido pela primeira vez um pouco antes de chegar a Florença).

No calor infernal de Florença da uma às cinco da tarde, quando só podíamos estar sob os 20 graus do ar condicionado, eu aprendia em casa o que depois ia ver na rua. Para completar, a edição da Divina Comédia com as ilustrações do Boticelli. Foram momentos deliciosos e preguiçosos, de descanso e prazer, dignos de um verão na Itália.

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2 comentários

  1. Lilian says:

    Oi, Lucy
    Tive uma experiência parecida de casamento livro-lugar quando levei A Sombra do Vento para Barcelona. Mesclar minha visão pessoal com a outra através dos olhos do autor magnificou o impacto da aventura. Mas foi a única vez.
    Sei que é diferente mas, para mim, acontece mais do cinema desempenhar o papel de guia.
    Seus textos sempre me fazem refletir.
    Um abraço e um ótimo fim de semana!

  2. Lucy says:

    Oi Lilian, não sei se é tão diferente ter o cinema ou a literatura como guia. Acho que é outra forma, mas o mesmo fim. Que delícia viajar! Um abraço!

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