Por que o Émile Zola está no Panthéon?

10 · 10 · 2010

Panthéon, Paris

O Panthéon de Paris é o jazigo de grandes personalidades nacionais, como Victor Hugo, Louis Pasteur, Alexandre Dumas, Voltaire, Émile Zola, entre outros. Construído inicialmente para ser uma igreja, dada a coincidência com a Revolução Francesa, ele acabou virando um panteão para os bravos homens da revolução e, em vez de reunir santos, reúne os grandes intelectuais da pátria. Com uma arquitetura clássica bastante sem graça, por dentro o Panthéon é um espaço vazio, exceto por algumas estátuas enormes e o famoso pêndulo de Foucault.

Estátua dentro do Panteão, Paris

Por uma escada no fundo do prédio se chega às catacumbas que formam quase um labirinto. Entre os soldados da revolução e os grandes homens das letras, medicina, filosofia, está Émile Zola, escritor fenomenal que soube usar a pluma como arma, além da expressão artística. Já consagrado como escritor, Zola foi o dreyfusard mais combativo e ousado.

Nesse caso que abalou a Europa no final do século XIX, o capitão Dreyfus, de origem judaica, foi acusado de traição, com base em documentos falsos e um processo realizado por procedimentos bastante duvidosos. O mais incrível de tudo foi que um “surto” de anti-semitismo procurou encobrir o erro judicial, de modo que Dreyfus foi preso em 1895, depois foi solto, mas continuou sendo considerado culpado e apenas em 1906 ele foi liberado. Hannah Arendt, por exemplo, em seu livro “As origens do totalitarismo” aponta o caso Dreyfus como uma das chaves para entender o anti-semitismo que cobriu a Europa durante a II Guerra Mundial.

Zola teve um papel fundamental no processo, pois publicou uma longa carta destinada ao presidente Félix Faure, no jornal “L’aurore”, acusando, com nomes e sobrenomes, todos aqueles que se posicionavam injustamente contra o Capitão Dreyfus. No artigo, chamado “J’accuse” (Eu acuso), Zola transforma o caso em questão moral de ordem nacional e internacional e, por isso, deverá se exilar, morrendo alguns anos depois na prisão, de forma bastante estranha.

Copio abaixo a carta de Émile Zola que retrata o valor de sua luta pela verdade e contra o anti-semitismo. Quando visitar o Pantheón, em Paris, Zola merece realmente toda a honra como um dos intelectuais que saiu da chamada “torre de marfim” para se posicionar contra a injustiça!

Aqui jazem Victor Hugo e Émile Zola, Panthéon, Paris

Eu Acuso! – O processo do Capitão Dreyfus

Paris, 13 de janeiro de 1898

Carta a M. Félix Faure Presidente da República Francesa

Senhor,

Permiti-me que, agradecido pela bondosa acolhida que me dispensou, preocupe-me mais com a vossa glória e vos diga que vossa estrela, tão feliz até hoje, está ameaçada pela mancha mais vergonhosa e inapagável. Saístes são e salvo de baixas calúnias e conquistastes corações. (…) Mas que mancha de lodo sobre o vosso nome pode imprimir este abominável processo Dreyfus!

Desde logo um Conselho de Guerra se atreve a absolver a Esterhazy, numa bofetada suprema em toda a verdade, em toda a justiça. E não há remédio; a França vai conservar esta mancha e a história vai registrar que semelhante crime social foi cometido ao amparo da vossa presidência. Já que se agiu sem razão, falarei.

É meu dever: não quero ser cúmplice. Todas as noites eu veria o espectro do inocente que expia cruelmente torturado, um crime que não cometeu. Por isso me dirijo a vós gritando a verdade com toda a força da minha rebelião de homem honrado. Estou convencido de que ignorais o que ocorre. Mas a quem denunciar as infâmias desta turba de malfeitores, de verdadeiros culpados, senão ao primeiro magistrado do país?! (…) Antes de tudo, a verdade sobre o processo e a condenação de Dreyfus. (…)

Procedeu-se a um minucioso registro, examinando-se as caligrafias. Aquilo era como um assunto de família e se buscava o traidor nos mesmos escritórios para surpreendê-lo e expulsá-lo. A partir do momento em que uma leve suspeita recaiu sobre Dreyfus, aparece o comandante Paty de Clam, que se esforça para confundi-lo e fazê-lo confessar.

Aparece também o ministro da Guerra, o general Mercier, cuja inteligência deve ser muito mediana, o chefe do Estado Maior, general Boisdeffre, que por certo cedeu à sua paixão clerical, e o general Gonse, cuja consciência elástica pode acomodar-se a muitas coisas.

O comandante Paty de Clam prende Dreyfus e o deixa incomunicável. Corre depois em busca da senhora Dreyfus e lhe infunde o terror, prevenindo-a de que se falar sobre o assunto, seu marido estará perdido. De sua parte o infeliz proclama em alaridos a sua inocência, enquanto a instrução do processo se faz como a crônica do século XV, em meio ao mistério, com uma terrível complexidade de expedientes, tudo baseado numa suspeita infantil, na nota suspeita… (…) Dreyfus conhece várias línguas: é um crime; em sua casa não encontram papéis comprometedores: é um crime; algumas vezes visita sua terra: é um crime; e trabalhador, tem ânsia de saber: é um crime; não se perturba: é um crime. Tudo é crime, sempre crime.

Falaram-nos de 14 acusações e não aparece mais que uma: a nota manuscrita suspeita. Os peritos não estão de acordo e um deles, M. Gobert, foi atropelado militarmente porque se permitia opinar em contra o que se desejava. Assim, pois, somente restava a nota suspeita, acerca da qual os peritos não estavam de acordo.(….) Para justificar a condenação fala-se da existência de um documento secreto, arrasador, um documento que não se pode publicar e que justifica tudo e ante o qual todos devemos nos inclinar. (…) O primeiro Conselho de Guerra pode ter-se equivocado, mas o segundo mentiu. (….) Por isso, repito, Dreyfus não pode ser inocente sem que todo o Estado Maior apareça como culpado. (….) Tal é a verdade, senhor presidente.(…) Não creia V., Exa. que eu desespero do triunfo. Eu repito com uma certeza que não permite a menor vacilação: a verdade avança e nada poderá detê-la. Quanto mais duramente se oprime a verdade, mais força ela ganha, e a explosão será terrível. Veremos como se prepara o mais ruidoso dos desastres.

Senhor presidente, concluo, que já é tempo:

Eu acuso o Ten. Coronel Paty de Clam, como agente do erro judicial e por haver defendido sua obra nefasta por três anos com maquinações insanas e culpadas. Eu acuso o general Mercier por haver-se tornado cúmplice, ao menos por fraqueza, de uma das maiores iniqüidades do século. Eu acuso o general Billot de haver tido em suas mãos as provas da inocência de Dreyfus, e não as haver utilizado, fazendo-se, portanto, culpado pelo crime de lesa-humanidade e de lesa-justiça, com o fim político de salvar o Estado Maior comprometido.

Eu acuso o general Boisdeffre e o general Gonse por tornarem-se cúmplices do mesmo crime, um por fanatismo clerical e outro por espírito de corpo, que faz dos escritórios do Ministério da Guerra uma arca santa e inatacável. Eu acuso o general Pellieux e o comandante Ravary por haverem fabricado uma informação infame, uma informação parcialmente monstruosa, na qual o segundo lavrou o imperecível monumento de sua torpe audácia.

Eu acuso os três peritos calígrafos, os senhores Belhomme, Varinard e Couard por seus pareceres enganadores e fraudulentos, a menos que um exame médico os declare vítimas de uma cegueira dos olhos ou do juízo. Eu acuso o Ministério da Guerra por haver feito na imprensa, particularmente no L’ É Clair e no L’Echo de Paris, uma campanha abominável, enganando a opinião pública para cobrir a sua falta. Eu acuso o primeiro Conselho de Guerra por ter condenado um acusado, com fundamento num documento secreto. E Eu acuso o segundo Conselho de Guerra por haver coberto esta ilegalidade, cometendo o crime jurídico de absolver conscientemente um culpado (Esterhazy).

Eu não ignoro que ao formular estas acusações atraio sobre mim os artigos 30 e 31 da Lei de Imprensa, que se referem aos delitos de difamação.

Voluntariamente ponho-me à disposição dos Tribunais. Um só sentimento me move: o desejo de que se faça luz. Meu ardente protesto nada mais é que um grito de minha alma. Que se atrevam a levar-me aos Tribunais e me julguem publicamente. Assim espero.

Émile Zola

Paris, 13 de janeiro de 1898

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4 comentários

  1. Malena says:

    Muy esclarecedor de por qué Zola esta en el Panteon. Muy bueno.

  2. Este texto é muito relevante para a nossa sociedade confusa, Zola surpreende com a sua coragem.

  3. Lucy says:

    Olá Marcos! Obrigada pelo seu comentário. Exatamente: coragem é o que mais falta hoje em dia, coragem para pensar, para divergir e também para concordar. Um abraço e volte sempre! 🙂

  4. Lucy says:

    Gracias, Male!

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