As passagens cobertas de Paris

10 · 27 · 2010

Galerie Vivienne, Paris

As galerias ou passages couverts de Paris são muito mais que espaços bonitos (ou decadentes), encravados em toda a cidade. Elas nos surpreendem e aparecem onde menos esperamos! Em sua maioria construída após a Restauração napoleônica, algumas datam já do final do século XVIII e são emblemáticas para o flâneur baudelairiano (veja o post sobre Paris de Baudelaire), tal como Walter Benjamin já havia falado no seu livro (que, depois de compilado, veio a se chamar) Passagens, bitelão que haja fôlego. Ninguém melhor que ele para nos dar a definição perfeita do que  são esses espaços:

Essas passagens, uma invenção recente do luxo industrial, possuem tetos de vidro, corredores com painéis de mármore que atravessam edifícios inteiros, e cujos proprietários se uniram para construí-las. Em ambos os lados dos corredores, que recebem luz de cima, estão as lojas mais elegantes, de modo tal que a passagem é uma cidade, um mundo em miniatura, onde os clientes encontraram tudo o que precisam“.

Para Benjamin, essas passagens ou galerias concentravam a preferência crescente por ambientes privados, isolados do mundo ao seu redor, que veio se desenvolvendo ao longo de todo o século XX até chegarmos às aberrações dos shopping centers: não-lugares (para usar o termo de Marc Augé) anti-ecológicos que, por serem tão fechados, precisam de um alto consumo de energia para iluminação e ambientação. Ao contrário disso, as galerias são espaços relativamente pequenos que, ainda hoje, albergam pequenas lojas especializadas, antiquários, livrarias, bistrôs, cafés e até a EHSS, e não estão no panorama turístico como a Galerie Lafayette que esconde sua cúpula belíssima sob milhares de turistas (chineses, 80%) consumistas.

As passages couverts parisienses inspiraram as outras que apareceram ao redor do mundo, que procuravam proteger o flâneur contra o frio e a chuva, isolando-o nesse pequeno espaço melancólico de consumo e instrospeção.

Galerie Colbert, Paris

Hoje, apenas algumas dessas galerias guardam o cuidado e o estilo que as caracterizaram desde um princípio. Outras estão decaídas, como a Passage Brady, mas que também tem seu encanto pelo cheiro que escapa dos restaurantes indianos, num bairro repleto de imigrantes de todas as cores e nacionalidades! Com prédios do século XIX, tanto o piso quanto o teto de vidro estão em estado bastante triste, mas vale a pena a visita para sair da “Paris chique” e comer uma comida indiana gostosa e barata. Ali, enquanto esperava o prato, dei um pulinho no mercado do lado para comprar quiabo e cozinhar em casa.

Passage Brady, Paris

Conhecer essas galerias foi uma pequena surpresa, em cada uma delas. Afinal, terminava relacionando o bairro à galeria, como foi o caso da Passage Jouffroy, com sua belíssima livraria de arte, além de lojas estranhas de miniaturas, o bairro ao redor não tinha muita graça, mas o passeio valeu por essa e outras galerias que estavam na região.

Passage Jouffroy, Paris

Na verdade, em homenagem a Walter Benjamin e ao Baudelaire, tínhamos anotado a lista das galerias para visitar e chegamos a conhecer quase todas as que aparecem nessa lista da Wikipedia. Além disso, essas passagens exibem uma arquitetura de arcos e colunas, geralmente neoclássica, que fica ainda mais interessante de se admirar se você tem um guia como o “Passages couverts parisiens” que explica não só a origem de cada uma das galerias, mas também o traçado original, atual e relevância arquitetônica de cada uma delas.

Conhecer as galerias ou passagens cobertas de Paris é penetrar um pouco da história da cidade e do que depois se denominou “modernismo”, como são os espaços de consumo, porém, os de uma época onde ainda se valorizava a beleza e a intimidade, mas quando o reboliço das ruas já era substituído por essas áreas fechadas e hedonistas.

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4 comentários

  1. Simone says:

    Concordo plenamente com o que está escrito aqui! Estas passagens são realmente preciosidades de Paris que poucos conhecem. Vale a pena passar algumas horas perambulando em cada uma delas porque cada uma tem sua especificidade.

  2. Lucy says:

    Exato, Simone! Eu curti muito procurar cada uma delas, estudar um pouco o desenho, inclusive ver, para minha tristeza, como algumas continuam belíssimas e outras estão tão decaídas. Coisas do passar do tempo. Muito bacana seu site, aliás! Um abraço e obrigada pela visita!

  3. Sahra Lemos says:

    Muito bom! Entrei no site por acaso procurando algo para me ajudar a entender mais sobre as passagens que Benjamin fala.
    Funcionou!

  4. Lucy says:

    Que bacana, Sahra! Volte sempre! Abraço!

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